O sistema da arte de Berlim

 

EM CONSTRUÇÃO!

 

 

A constelação formada pelos protagonistas da cultura em Berlim vem mudando drasticamente desde o começo dos anos 2000, quando o então prefeito Klaus Wowereit, em entrevista à revista Focus-money (2003)[1], introduziu o novo slogan da cidade: “Poor, but sexy!” (“Pobre mas sexy!”). Assim foi iniciado o processo de ascensão de Berlim como um centro internacional para a produção em arte contemporânea (Friederike Landau, 2016)[2].  A existência de instituições bem estabelecidas foi crucial para esse processo (Michaela Englert e Hergen Wöbken, 2010)[3].

A cena de arte independente[4] – da qual é parte importante o circuito de project spaces[5] e outras iniciativas não orientadas pelo mercado da arte – formada ao longo da última década em Berlim, foi alimentada, inclusive, por um intenso fluxo internacional, de artistas e outros agentes da arte, que garantiu sua diversidade cultural. São 3 as razões para este movimento migratório: o histórico relacionado à cultura urbana em Berlim antes e depois da queda do muro (1989), as condições de produção acessíveis e a disponibilidade de espaço físico (Netzwerk freier Berliner Projekträume und initiative, s/d)[6] .

 

A abolição da feira Art Forum Berlin, em 2011, e o debate em torno da criação de um salão de arte para Berlim, deram conta de politizar as cenas artísticas locais. Este período também foi marcado por eventos controversos: tentativas de institucionalizar a colaboração entre atores do campo cultural em Berlim, como a conferência “K2”, realizada em 2012 pelo Senatskanzlei für Kulturelle Angelegenheiten (Senado para Assuntos Culturais), e o Jour Fixe, um comitê que até hoje reúne diversos stakeholders das artes visuais, manobrados pela Netzwerk freier Berliner Projekträume und initiativen (Rede de Project Spaces e Iniciativas Independentes de Berlim). Um dos produtos destas reuniões, um relevante ganho para a cena de arte independente, foi a introdução de um prêmio para project spaces em 2013 (Friederike Landau, 2016).

 

Hoje a cena artística em Berlim é uma das mais vibrantes do mundo: acolhe estimados 20.000 artistas (além de 20.000 outros agentes independentes da arte), mais de 200 galerias comerciais de arte contemporânea, cerca de 175 museus e coleções, entre 150 e 200 project spaces geridos por artistas e uma crescente cena de start-ups, incluindo co-workings e outros espaços de produção colaborativa (Friederike Landau, 2016)[7].

 

O sistema da arte em Berlim está composto, portanto, pelos seguintes atores:

 

  • As políticas públicas culturais: inclui as instituições culturais, tais como museus, centros e espaços culturais, coleções, cujos recursos advém, principalmente, do poder público.
  • O setor privado: empresas privadas com fins lucrativos que tensionam o mercado da arte, tais como galerias de arte comerciais, feiras e leilões de diferentes portes, escritórios e merchands; e empresas patrocinadoras de projetos e instituições.
  • A cena de arte independente, um grupo plural e diverso formado por iniciativas auto-organizadas por artistas, inclusive os chamados project spaces, os espaços geridos por artistas (artist-run-spaces)[8], atores coletivos e redes, assim como outros agentes autônomos da arte: curadores, críticos, gestores, pesquisadores e educadores.
  • Os artistas: iniciantes, emergentes ou estabelecidos, conectados com a cena de arte independente, o circuito institucional e/ou galerias comerciais.
  • Os diferentes públicos da arte: artistas e outros agentes da arte, colecionadores de distintas camadas das comunidades, estudantes, apreciadores, entre residentes permanentes, residentes temporários e turistas, dentre outros.

 

 

[1] Disponível em

[2] No artigo Diversifying the stage of policymaking:
A new policy network in Berlin’s cultural field (Diversificando o palco da elaboração das políticas: uma nova rede política no campo cultural de Berlim), publicado em 2016 no livro Art and the City, editado por Jason Luger e Julie Ren.

[3] Em Studio Berlin – Study on contemporary art in Berlin, publicado pelo Institute for Strategy Development (IFSE), em 2010. Disponível em http://www.ifse.de/en/articles-and-studies/singleview/article/studio-berlin-study-on-contemporary-art-in-berlin.html.

[4] Friederike Landau (2016) define a cena independente como a totalidade de produções livres, artistas residentes em Berlim, agrupamentos, instalações e estruturas não patrocinadas, dos campos da arquitetura, artes visuais, dança, artes cênicas, performance, novas mídias, música – do barroco, eletro, jazz e clássico à nova música -, teatro infanto-juvenil e infantil, musicais e literatura, assim como outras formas de produção cultural inter ou transdisciplinares.

[5] Os project spaces serão definidos nos próximos parágrafos.

[6] No Bildpräsentation des Netwerks Freier Berliner Projekträume und-Initiativen (Apresentação de imagens da Rede de Project Spaces e Iniciativas Independentes de Berlim), disponível em seu site: http://www.projektraeume-berlin.net/netzwerk/mission/.

[7] No artigo Articulations in Berlin’s independent art scene: on new collective actors in the art field (Articulações na cena de arte independente de Berlim: os novos atores coletivos no campo da arte), publicado em 2016 no Emerald Insight.

[8] Em Berlim, os artist-run-spaces são entendidos como espaços equivalentes aos que, no Brasil, constituem-se originalmente como ateliê de um ou mais artistas, o que significa que, em geral, tem suas atividades voltadas para os processos e produção deste(s) artista(s).